Ele andava cambaleando de cansaço com suas alpercatas surradas. Percorria longa e difícil trajetória da sua casa ao centro da cidade. Aquela simples trouxinha nas costas, demonstrando ser um vendedor honesto e paupérrimo com algumas guloseimas a dispor para adocicar o dia amargo. Um dia árduo como qualquer outro, onde a esperança de uma venda mais lucrativa sempre aguçava. Mas as alpercatas poderiam fazer a diferença dessa vez! Agora ele tinha o que calçar e isso era praticamente mágico.
Ficava no seu ponto comercial: "uma barraquinha de pau-a-pique mirradinha e singela contrastando com o ambiente de fora: uma praça florida, pessoas de vestes luxuosas e criancinhas mimadas tomando sorvetes." Até que não era tão impossível de se vender um pano de prato... Um artesão pobre mas com mãos tão ricas e dotadas! A questão é que o evitavam; sua presença era imperceptível e justamente por isso uma permuta voltando para este dinheiro era quase rara; e quando acontecia, davam mais esmolas fazendo-o sentir-se como um qualquer do que alguém tão raro e especial. E eis que um menino ímpar (ímpar mesmo meus caros!) aparece lá... E com o dinheirinho de seu sorvete (que não era pouco comparado ao dinheiro que o velho ganhava) comprou cinco panos e ainda deu uma caixinha para o senhor:
- Olha, não interprete isso como uma esmola como todos o fazem... Seu valor é grandioso demais para que uma simples moeda o pague; ou melhor, é realmente impagável; a arte de traçar estas linhas sob a pressão e o preconceito do mundo é rara e indiscutível. Não fale nada; apenas aceite.
O velhinho por sua vez aceitou e literalmente ganhou o dia: tanto no financeiro quanto no emocional. Ele cativou o menino de um modo que não dá pra explicar. Não teve tempo de agradecê-lo pois este saiu correndo em torno de árvores e curtindo sua infância.
Voltou para a casa satisfeito e pensativo... Aquele não foi um dia como qualquer outro. O lucro até que foi pouco, mas o apreço e a auto-estima dele ficaram imensuráveis e cativados por uma pessoinha. E as alpercatas só foram de bom uso porque trouxeram-lhe sorte; o que jamais teria é infortúnios novamente.
Nenhum comentário:
Postar um comentário